- Não acha estranho reservar todo o amor que possui para pessoas estranhas? Você odeia tanto seus pais...
Conversávamos a caminho de casa e eu mantinha os olhos fixos na calçada. Ele, ao contrário, não tirava os olhos de mim.
- Deveria?
- Bom, eu acho. Quer dizer... Eles te deram a vida, não é?
- Justamente. - Ele respondia com a calma de quem explica algo muito óbvio. - Por isso mesmo, como poderiam esperar que eu os amasse?
Então ele riu e colocou o braço esquerdo sobre os meus ombros. Não houve jamais uma manhã mais bonita.
Promessas de ano novo.
Postado por Érika C. às 10:08 0 trovoadas.
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Não quero pensar a vida como se pensa um sonho. Quero vê-la simples e isso ser tudo.
Há qualquer coisa no existir que muito me amedronta. Talvez seja a impressão de que ainda não comecei a fazê-lo.
Existir é tarefa muito complicada ao meu coração.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 21:51 1 trovoadas.
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Redenção
Mais dois passos e seria o infinito. A imensidão vazia do meu corpo contra o universo do seu. No princípio um contato rápido, carregado de medo. Depois a entrega colhida na ponta dos pés.
O meu querer não é mais que uma devoção sem esperanças. É pôr os barcos n'água sabendo de seu naufrágio. É guardar-lhe o sorriso em lembrança e isso ser tudo.
Que importa que houvesse sol quando deixei o seu abraço? Hoje você veio na chuva.
"No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação."
F. Pessoa
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 03:09 0 trovoadas.
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Meu amor, minha vida sacramentada
segmentada em seus suspiros fundos
em seus sorrisos, mundos.
domingo, 16 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 01:03 0 trovoadas.
Mutilado.
E os braços envolveram-me de novo, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que fora meu reino e agora eram escombros. Quando mergulhei no castanho fundo dos seus olhos não pude evitar a maré alta dos meus.
As horas escorriam. O calor que descia pela garganta fez-me esboçar um afago. Os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar. Daquele momento em diante só soube guardar uns poucos instantes de luz: o corpo que se despia apressado, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio, e antes de entregar-se ele calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."
Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Ele em um sono solto, e eu explodia em agonias inimagináveis. Então veio o travesseiro firme contra o rosto que quis tão bem. Ele resistiu, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi a lividez que resultou de meu desespero. Talhei convicta a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.
domingo, 9 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 23:01 0 trovoadas.
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Antes do fim.
"Te encontro às dez."
Eu estava atrasada. Eu sempre estava. Mas hoje não, hoje não podia perdê-lo. Como fez falta o sorriso largo nos meus dias vazios, vazios a não mais poder. O passo apertado, cada vez mais apertado. Os saltos dos sapatos entoando o canto apressado da saudade.
Enfim.
E os braços envolveram-me de novo naquele abraço, abarcando meu corpo inteiro, tomando posse do que um dia foi meu reino e agora era só um amontoado de escombros. Quando afastei o rosto e mergulhei no castanho fundo dos olhos dele, não pude evitar a maré alta dos meus.
As horas escorriam enquanto segurávamos as mãos, separadas apenas quando se deu a chegada do primeiro copo. O calor que descia pela garganta, corando as faces, fez-me esboçar um afago. Logo os lábios se encontraram, nervosos, pedindo pela fuga que não nos esquivamos de executar.
Daquele momento em diante a memória só me permitiu guardar uns poucos instantes de luz: a porta, o corpo que se despia apressado, os sons, o amor declarado na imprudência do momento, o suor, o fim.
O sono veio com a cumplicidade dos olhares. Antes de entregar-se ele ainda calou minhas súplicas silenciosas. "Eu também te amo."
Agora o peito não me daria descanso. Como, se eu há muito não sabia receber amor em troca? Que faria de mim? Ele dormia um sono solto, e eu quase explodia em agonias inimagináveis.
Então veio o travesseiro, firme, contra o rosto que eu queria tão bem. Ele resistiu, assustado, mas não por muito tempo. Afrouxei os braços e vi então a lividez que resultou de meu desespero.
Talhei, convicta, a mão fria e bebi com sofreguidão a essência do meu desejo. Aninhei-me em seu peito pra cantar, num fio de voz, o adeus.
"Pode ser a eternidade má..."
E nunca mais minha mente se ocupou de sua lembrança.
Postado por Érika C. às 21:43 0 trovoadas.
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Afogamento.
Acordei mergulhada em mim. As sensações cobrindo-me até o pescoço. Os horrores, os odores da tristeza vindo nariz adentro. O rosto assustado de quem nunca soube viver sem sobressaltos. Os cabelos dançando na frialdade estática do suor.
Os olhos seguiam abertos, pétreos, enquanto executava-se, alheia à minha vontade, a revolta mecânica dos braços. Colher, arrancar, tomar para si, atirar longe, livrar-se, partir, rasgar. Partir e rasgar, acima de qualquer outra coisa. Partir as esperanças, esmiuçá-las ao máximo. Rasgar o peito em agonias inexprimíveis, em fantasias vãs, em realidades cruas, cruéis. Rasgar-se enfim, sem necessidade de remendo, sem desejo de reparação.
E a mão, por fim, erguida num pedido de socorro.
O último suspiro, e afundo. Os olhos frios, a boca entreaberta, os sentimentos inundando definitivamente meus pulmões.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Postado por Érika C. às 12:52 0 trovoadas.
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